Palavras de nosso presidente: "Não somos daqueles que consideram a Amazônia um santuário da Humanidade. Do lado brasileiro moram quase 25 milhões de pessoas que querem trabalho, comer, ter carro e ter acesso aos bens produzidos."Teria dito isso Lula durante encontro com o presidente francês Nicolas Sarkozy na Guiana Francesa.
Concordo com ele na segunda parte de seu discurso. Não há o que discutir. Todos merecem tudo isso que ele sugere. E muito mais. Seus filhos merecem viver em um lugar que respeita sua riqueza, seu ambiente. Merecem educação, saúde, cidadania. Assim como os filhos dos outros 160 milhões de brasileiros.
Mas como isso se conecta com a estupefaciente primeira frase de seu discurso? Nessa parte, discordo frontalmente dele. Para mim, não há o que discutir. A Amazônia é um santuário da Humanidade sim, presidente. É, também, por conseguinte, um santuário do Brasil. Não há, contudo, como mantê-la intocada. Mas quem adota esse discurso nos dias de hoje? As ONGs que, segundo ele, deveriam ir plantar árvores em seus próprios países? Essas têm consciência, há já algum tempo, da necessidade de se aliar a preservação e o desenvolvimento da economia local.
Impõe-se, então, um eventual paradoxo, se a lógica por trás das palavras de Lula da Silva for levada ao pé da letra. Como aliar o desenvolvimento da região e a preservação da floresta? Verdade seja dita, essa é tarefa de não fácil realização, mas opções as há. O que não pode ser permitido é a contínua escalada do desmatamento ilegal para expansão da fronteira agrícola. Isso não deveria ser alardeado pela ministra do meio ambiente, segundo ainda o presidente, porque ninguém tem certeza de que seriam pecuaristas e agricultores os responsáveis. Esqueceu-se ele de apontar uma alternativa a isso. Teriam sido bioterroristas os responsáveis pelas queimadas?
Essa é uma discussão por demais complexa. Envolve emissões de carbono e por conseguinte aquecimento global. O país necessita diminuir suas emissões no caminho trilhado junto com toda a Humanidade de encontrar soluções que permitam a sustentabilidade do planeta para nós e as gerações que virão depois. É missão por demais importante para ser suplantada pelo crescimento inercial de lavouras e pecuária. Se no primeiro caso o país olha para o futuro, no segundo mantém os pés arraigados no passado.
Segundo Philip Fearnside, pesquisador do Inpa, outros países deveriam pagar pelos benefícios ecológicos que a floresta amazônica traz (Isto É edição 1997). Essa é uma dentre várias opções à agropecuária. A extração de madeira pode - por outro lado - ser feita de maneira sustentável, como já vem sendo feito por algumas das madeireiras. O que não se mantém é a falsa dicotomia Desenvolvimento X Preservação. E é exatamente para isso que aponta o discurso de Lula. Fugindo do tema principal, que seria a procura de soluções e tomada de posição, nosso presidente defendeu, ao final de seu encontro com Sarkozy, acordos de cooperação entre França e Brasil com o objetivo de estudar a biodiversidade na região. ''''Uma das coisas que me encantam e encantam o presidente Sarkozy é a idéia de começarmos a discutir juntos a questão da biodiversidade.''''
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
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